Operação "mãos limpas" no Hospital de São João ...

Operação "mãos limpas" no Hospital de São João eliminou 30% das infecções

Operação mãos limpas no Hospital de São João eliminou 30% das infecções

Afinal, ter as mãos desinfectadas pode fazer a diferença com uma simples operação "mãos limpas", o Hospital de S. João (HSJ), no Porto, conseguiu reduzir as infecções hospitalares de 19% em 2005 para 12,5% em 2006. E para isso bastou-lhe avançar com uma medida já aplicada em várias unidades pelo mundo fora. Colocou dispensadores de solução alcoólica desinfectante ao pé de cada cama e deu formação aos funcionários. Tudo por um preço que, em 2006, ronda os 37 mil euros. Uma ninharia quando comparado, por exemplo, com o gasto em medicamentos da unidade - 71 milhões de euros por ano, num orçamento total de 294 milhões.

A ideia nasceu bem antes de a reconhecida falta de tacto do ministro da Saúde ter provocado uma das maiores polémicas do seu reinado à frente da pasta. Corria o mês de Junho de 2005 e Correia de Campos não encontrou melhor forma de assinalar a tomada de posse da Administração do HSJ do que - aproveitando os números de infecções hospitalares avançados pelo presidente da unidade como justificação para pedir obras urgentes - afirmar que isso era porque "há muitas mãos que não são lavadas".

Na altura, criticaram-lhe a brusquidão dos termos e alertaram para o estado decrépito do HSJ, que não oferecia sequer condições para uma higienização correcta. E o facto é que todos pareciam estar certos. Se a campanha de sensibilização para os cuidados a ter com higienização já arrancara na unidade, o verdadeiro passo só foi dado no ano passado, com a instalação da tal solução alcoólica com que os profissionais desinfectam as mãos entre cada doente. E veio a par com a formação de todos os funcionários e a ameaça de processos disciplinares a quem não cumprisse as normas.

"Não houve nenhum e espero que não haja!", graceja o actual presidente do Conselho de Administração do HSJ, António Ferreira. "E foi bom a comunicação social pegar nisso, porque trouxe para a agenda do hospital a questão das infecções nosocomiais". Na altura em que o ministro cometeu a gafe, a taxa de prevalência era ali o dobro da média nacional, então nos 9,9%.

E se as mãos limpas não bastam para eliminar as infecções hospitalares, ajudam bastante. De acordo com o Programa Nacional de Prevenção e Controlo das Infecções Relacionadas com os Cuidados de Saúde, da Direcção-Geral da Saúde, 30% a 40% dos casos são transmitidos pelas mãos dos profissionais de saúde.

E, segundo um estudo promovido pela Organização Mundial da Saúde na Suíça, o uso generalizado de solução desinfectante reduziu para menos de metade, em quatro anos, os casos de infecção provocados por uma única bactéria resistente aos antibióticos.

A resistência das bactérias aos antibióticos é, na verdade, a maior responsável por infecções hospitalares. O uso generalizado desses fármacos em meio hospitalar acaba por tornar as bactérias impermeáveis. O trabalho na área do medicamento foi, por isso, outra das lutas travadas no HSJ que contribuiu para o progresso. Instituiu-se o uso variado de medicamentos e impôs-se critérios "muito rígidos de dispensa de antibióticos de largo espectro", reservando-os ao tratamento de bactérias multiresistentes. O terceiro passo foi arrancar com a modernização de um hospital com 48 anos de idade e, hoje, duas caras. Uma realidade dupla (ver texto ao lado) cujo fim António Ferreira promete para daqui a dois anos e 70 milhões de euros de investimento.

Agência LUSA, Ivete Carneiro, Pedro Correia

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